Notas sobre o eletrocooperativismo

IMGA0871.jpg Como falar de uma experiência coletiva de transformação humana, sem incidir em uma teorização vazia? Como fazer jus ao brilho nos olhos de quem dela participa? Será que valerá a pena se isso por si só não transformar, a mim que tento descrever e a você aí que me lê? Aviso desde já que ao ler esse artigo, se você for como eu, ao final da leitura será outra pessoa. Apesar de soar tão desgastada nos slogans de televisão, nas campanhas políticas e nas letras de música, ainda podemos fazer alguma coisa para mudar o mundo.

A Eletrocooperativa é a realização de um sonho de transformação social através da música e da tecnologia. Alguma coisa diferente está acontecendo na atmosfera mental (noosfera) do mundo e a Eletrocooperativa faz parte disso. Uma forma diferente de entender o valor das coisas, privilegiando muito mais as relações e os links sociais, do que a acumulação e o isolamento social. Empreendendo a aproximação entre vários setores da sociedade, envolvendo artistas, empresários, profissionais liberais e órgãos públicos, através de um laborioso trabalho de articulação. Experiências como a Eletrocooperativa buscam respostas para as perguntas que o nosso medo ou egoísmo não nos deixa ouvir. Sim, existem saídas para o caos, para a violência, para a desigualdade, para o individualismo e para a falta de sentido de nossas vidas. Alguém já ouviu falar em solidariedade? Pois é, ela existe e assume múltiplas formas, uma delas é o cooperativismo. Co-operar e co-laborar são palavras irmãs, o sentido é de estar juntos. É um fazer coletivo que desenvolve nossa consciência social, nos faz ver o mundo de uma outra forma e isso por si só já é uma mudança importante. Uma obviedade que nossa razão até aceita, mas que dificilmente consegue nos mover na direção de uma nova prática social. Talvez porque a razão não baste, saber o que é certo não é suficiente para começar a fazê-lo. Pode parecer paradoxal, mas só conseguimos compreender de fato a força transformadora do trabalho coletivo, quando trabalhamos coletivamente. A experiência de co-operar contamina o corpo e o que mais você tiver aí por dentro. Nos envolve de uma tal forma que fica difícil não ter esperança num mundo melhor depois disso.

Epifania
A iniciativa de criar um centro de colaboração estético-social foi de um grupo de jovens da classe média, em sua maioria bem nascidos e apaixonados por música, mas preocupados com o rumo da convivência humana nas grandes cidades. No caso de Salvador, uma importante matriz cultural para o que chamamos de Música Popular Brasileira, é na luta contra a concentração de renda desproporcional, a falta de perspectiva de muitos jovens talentosos ou mesmo contra a ganância de muitos empresários da indústria local de música, que se insurge a proposta da cooperativa de música e tecnologia. Os baianos Reinaldo Pamponet e Fernando Ferrel e os paulistas Marcio Zorzella e Dudão Melo deram os primeiros passos, mas nada conseguiriam se já não ouvissem as demandas dos jovens excluídos.

Segundo Reinaldo, que atualmente está frente da instituição, o projeto era criar uma ong com o objetivo de promoção social através do acesso aos meios de produção musical, auxiliando de forma colaborativa no desenvolvimento da autonomia financeira de jovens de baixa renda. Situada no centro histórico de Salvador, Pelourinho, nº 34 da Rua João de Deus, pretende em breve expandir o alcance de suas realizações com a abertura de sedes em Arcoverde (PE) e São Paulo (SP). A Eletrocooperativa é uma ong (organização não-governamental da sociedade civil, sem fins lucrativos) que trabalha preferencialmente com jovens de 15 a 25 anos que tenham interesse na área musical e artística. Foi inaugurada em 2003 com uma grande festa, onde o dj Patife tocou junto com percussionistas dos blocos afros (essa epifania foi registrada e está disponível no podcast Soteropaulistano). A estratégia inicial foi conseguir jovens com aptidão a partir do contato com os blocos, depois foram realizadas oficinas de capacitação. Segundo o site do projeto, desde o início das atividades 579 jovens foram beneficiados nas diversas atividades existentes: Inclusão Digital, Produção Musical, Técnicas de estúdio, Teoria Musical, Oficina de Djs, Formação Cidadã, Apoio Psicológico, Empreendedorismo e Cooperativismo, Desenvolvimento do Plano de vida individual, Modelo de Geração de Renda (em fase inicial). São jovens que estão aprendendo a fazer business cultural, de maneira mais horizontal. Também estão aprendendo a produzir bens culturais que privilegiam a circulação e a troca, já que não restringem as possibilidades de cópia e compartilhamento de sua produção. Estes jovens artistas optam por não adotar as clássicas regulamentações de copyright, mas não abdicam de assumir a responsabilidade por suas criações. Já foram produzidos 8 CDs, 10 CDs estão em finalização e já são mais de 10 mil downloads de música no portal. Também é possível disponibilizar músicas no portal da iniciativa, mesmo sem ser aluno, como fizeram os artistas Lucas Santtana, Chico Correa e as bandas Diamba, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, tara_code e Lampirônicos. Atualmente existem 35 artistas cadastrados no portal.

Pesca de rede
A originalidade da Eletrocooperativa está em sua proposta de fomentação cultural, estimulando uma perspectiva colaboracionista de produção e difusão de bens culturais. E aliando a isso a oferta de produtos específicos como jingles, ringtones, células rítmicas para loops e um portal na internet que oferece espaço para que se disponibilize músicas licenciadas em Creative Commons. Assim, a principal forma de distribuição da produção musical da instituição é através do portal. Aqui está a sua ponte com o modelo de negócios abertos, chamado Open Business. As músicas produzidas na Eletrocooperativa também podem ser adquiridas comprando-se os cds que são vendidos pelos próprios meninos ao preço de R$ 5 nas ruas do Pelourinho. No entanto, a participação dessas vendas na sustentação do projeto ainda é pequena. Até o momento (nov/2006), foram vendidos um pouco mais de 4 mil cópias, o que significa algo em torno de R$ 20 mil. A disponibilização das músicas no portal amplia a visibilidade do que é produzido na Eletrocooperativa, a estratégia é chamar a atenção para a forma de produção e distribuição. Nesse contexto pode se entender a venda de cds físicos como uma forma de adesão ao projeto, ou seja o comprador antes de mais nada está contribuindo para a manutenção da iniciativa. Os demais produtos, como rigtones e jingles, serão negociados enquanto prestação de serviços s empresas interessadas.

A mídia local ainda não deu a devida atenção, mas o público de artistas como o grupo de rap Império Negro, formado por alunos da cooperativa, já demonstra que essa equação pode mudar. Segundo Marcos Vinícius dos Santos, o MC Xarope já são vários os convites para show, alguns inclusive são pagos. Não preciso citar aqui o exemplo de bandas como a Cansei de Ser Sexy, no portal Trama Virtual, ou a banda Arctic Monkeys, no MySpace (vale ler a matéria do Alexandre Matias sobre isso) . Guardada as devidas proporções, não são poucos os casos de bandas e artistas que conseguem furar a parede do sucesso financeiro usando a Internet. Essa é uma das apostas da estratégia de auto-sustentação da Eletrocooperativa, além de ser uma possibilidade muito interessante para os próprios artistas.

Um outro caminho, que não se opõe, nem exclui o uso da Internet, tem sido a comercialização de produtos como ringtones e jingles que estão começando a ser produzidos na Usina de Produção: Juventude e Trabalho, o novo projeto da Eletrocooperativa. Nela estão 21 jovens com carteira assinada, ganhando um salário mínimo, num projeto que prevê três anos de trabalho integral, com a previsão da geração de uma poupança coletiva, com mais de R$ 100 mil. A idéia é que os jovens aprendam a trabalhar como músicos e como produtores. A cada seis meses serão integrados ao projeto mais vinte jovens. O projeto, que conta com o apoio da Fundação Avina e do Instituto ibi, parte do princípio que entende que é melhor “ensinar a pescar, do que dar o peixe”. Carteira assinada, experiência profissional e fomentação cultural são ingredientes poderosos e podem significar a promoção social desses jovens. Além, é claro, de ampliar o leque da própria Eletrocooperativa. Oferecendo ao mercado mais uma possibilidade de colaboração, espera-se assim que o empresariado abra os olhos e veja que a ganância de alguns pode levar todo o sistema produtivo para o buraco. A incubação de empresas leva ao jovem a oportunidade de aprender fazendo. Por outro lado, contratar uma empresa como a Usina de Produção estimula a responsabilidade social do mercado, além de ser um diferencial que pode trazer grandes surpresas, por ser uma resposta alternativa, que não esquece e nem precisa esquecer, muito pelo contrário até estimula, o desenvolvimento do mérito e da qualidade.

Cria(r) ação
Como se não bastasse, a importância social do trabalho de inclusão e educação promovido pela Eletrocooperativa, ela ainda se configura como uma promessa relevante de renovação do cenário cultural popular da cidade, multiplicando as possibilidades para os profissionais da área musical. Para isso foi fundamental a articulação com blocos afros como Olodum, Ilê Aiyê, Didá, Cortejo Afro, Malê de Balê, Filhos de Gandhy entre outros que ajudam e identificar jovens com interesse na área musical. Ou mesmo a parceria com coletivos alternativos com os Djs do Pragatecno ou os Vjs do Mote. Tudo isso faz a atmosfera criativa do Eletrocooperativa fervilhar de idéias novas. Cds como EletroErê, com cantigas infantis remixadas, ou o Eletropercussiva, banda que mistura diversas referências em seu liquidificador sonoro, ou o Afrogueto, que inclusive foi indicado ao prêmio Hutuz como melhor grupo de hip hop Norte-Nordeste, além do já citado Império Negro. Esses são apenas alguns exemplos dentro de um universo rico de possibilidades estéticas, que pode ir do arrocha ao pop-rock, do forró ao samba-funk e música eletrônica. Colaborador e Coordenador Artístico do projeto, o músico Gilberto Monte, frisa a importância de saber conviver com as diferenças estéticas. Tudo é discutido democraticamente, nada pode ser imposto em um ambiente de criação coletiva.

Da mesma forma que seus alunos, a instituição antes de começar a andar com as próprias pernas tem contado com a ajuda de alguns parceiros. Um deles é o Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia), autarquia vinculada Secretaria da Cultura e Turismo da Bahia, que cedeu a casa usada como sede do projeto e financiou a compra de equipamentos. Outro é o MinC (Ministério da Cultura) que ampara o projeto pela Lei Rouanet de incentivo cultura, vale lembrar que a Eletrocooperativa também é Ponto de Cultura (Os Pontos de Cultura são a principal ação do programa Cultura Viva, uma rede de produção e gestão cultural, lançada pelo Ministério da Cultura. Além de apoio financeiro e patrocínio para projetos culturais, instituições e agentes culturais que articulam e estimulam uma série de ações em suas comunidades. O programa respeita a autonomia de cada artista, entidade ou local). A Philips, a Fundação Avina e a Natura também contribuem financeiramente com a ong e recentemente foi firmada uma parceria com o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), resultado da atuação conjunta do Sebrae-SP e de diversas entidades com a finalidade de fornecer suporte técnico para o desenvolvimento do portal da ong. Pode parecer arriscado ter tantos apoios quando se busca a auto-sustentabilidade, mas não se pode ser ingênuo, pois ainda não há como se prescindir dos aliados. Estamos falando de uma grande retomada do sentido solidário no mundo, então porque não ter parceiros? Pode-se, sim, ser seletivo e estipular contrapartidas inteligentes. O caminho da auto-sustentação não é fácil, não existe uma receita de bolo, mas não é uma meta impossível, a sua viabilidade está justamente na aposta que a imensa maioria da humanidade faz de um futuro melhor. Eu não tenho dúvida de que quanto mais pessoas conhecerem propostas como a da Eletrocooperativa e entenderem que este é um caminho possível de alavancar a qualidade de vida desse planeta, a sustentabilidade será atingida com a tranqüilidade e a naturabilidade de um passo a frente.

“Manter a consistência com a proposta e entender a demanda coletiva, sem medo de encarar os desafios”, segundo Reinaldo Pamponet, é o caminho das pedras. Não é possível fazer um trabalho como esse sem saber ouvir, pois todos os parceiros são importantes. Mas a principal sustentação é a própria sociedade quem dá, por isso a transparência é fundamental. Segundo ele, o Open Business é um modelo de negócio, de relação social e um modelo corporativo que opta pelo desenvolvimento do capital social, valorizando a importância da meritocracia, da ética e do respeito; coisas importantes para nortear o consenso social. Criatividade é criar e colocar em atividade. A criação é um processo da realização, ação que cria. O mercado de trabalho está muito fechado, mas não existem “excluídos”, só os que ainda “não foram inseridos”. Segundo ele, é preciso abrir a porta do mercado, pois sem estabilidade social o próprio mercado perde espaço. Por isso hoje crescem as empresas que enxergam que o lucro tem que ir além do valor monetário, o chamado Triple bottom line, onde os resultados de uma empresa são medidos em termos econômicos, ambientais e sociais. O lucro é importante, o problema é a apropriação individual, o lucro tem que circular para ser realimentado e gerar desenvolvimento. O mundo de Jocemar Pereira, aluno da cooperativa, já mudou e nada pode apagar o brilho de seus olhos quando olha para o futuro.
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Não deixe de conhecer o portal da Eletrocooperativa: www.eletrocooperativa.art.br, o hotsite da instituição: www.eletrocooperativa.org e suas colaborações no overmixter.

One Response to “Notas sobre o eletrocooperativismo”

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  1. [...] Já aqui escrevi antes sobre a Eletrocooperativa. Vale a pena referir este projecto outra vez. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos com origem em São Salvador da Baía, Brasil, que funciona ao mesmo tempo como iniciativa de inclusão social através da educação musical, netlabel e incubadora de empreendimentos cooperativos. sto vem a propósito de um relato memorável que eu encontrei no OpenBusiness assinado por um dos responsáveis do projecto. Aí se pode ver como o Brasil é mesmo a “terra do possibilismo” onde apesar de todos os obstáculos a enfrentar, surge semore um “mutirão” em cada esquina. É destes projectos que fazem falta em Portugal e um pouco por todo o mundo para dar mais esperança e mais alegria às pessoas e para fomentar a criatividade. Toda a gente é um criador em potência, apenas basta estimular essa inventividade em potência, deixá-la florescer sem restrições, compartilhar a cultura e o conhecimento. E que melhor arte senão a música, a mais universal de todas e em simultâneo a mais abstracta para dar o primeiro passo nesse sentido. E se no final conseguirmos assegurar a auto-sustentabilidade económica desses projectos num mercado agressivo e ultra-competitivo tanto melhor ainda… Voltando ao artigo, porque vale mesmo a pena lê-lo até ao fim, decidi excepcionalmente fazer a cópia integral. Notas sobre o eletrocooperativismo [...]

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